sexta-feira, 11 de dezembro de 2009



O livro que não revela nenhum segredo
Seitas e Doutrinas

Dom Edson de Castro HomemBispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro

É sucesso de venda a tradução do livro The Secret, O Segredo, autoria de Rhonda Byrne. Motivos não faltam para tanto. Trata-se do gênero de auto-ajuda, que visa à estima de si, tipo de literatura muito apreciada. O texto é simples, claro, direto, envolvente. A leitura é agradável.
A motivação é a cobiça: “Você passará a saber como pode ter, ser ou fazer o que quiser. Passará a saber quem realmente é. Passará a saber a verdadeira grandeza que está à sua espera na vida” (Prefácio).

No entanto, nem tudo que reluz é ouro. Por isso, esclarecemos aos fiéis católicos, de modo sucinto, quanto à falta de consistência da obra e em que discorda do ensinamento evangélico.
Inconsistência

Citando frases de efeito e de autores, sem a devida referência bibliográfica, e fora do contexto, a obra afirma sem matizes: “O Segredo lhe dá tudo o que você quiser: felicidade, saúde, riqueza. Você pode ter, fazer ou ser o que quiser. Nós podemos ter qualquer coisa que escolhermos. Não me importo com o tamanho do desafio”.

Trata-se de convicção voluntarista, aquela que apregoa: querer é poder. Entretanto, a realidade da vida é bem outra. Sabemos que, embora a vontade seja imprescindível, não é suficiente se não houver capacitação e oportunidades. Há poderes externos que influenciam e até limitam a vontade. Ela própria precisa ser formada, educada e até purificada para o bem de si e do outro, para a liberdade, a responsabilidade e a beleza, a convivência em geral, a harmonia e o respeito pelo meio ambiente. Ninguém consegue tudo sozinho, apenas com sua forte vontade. Daí, a importância socializadora da família, da escola, da religião.

A obra pergunta: O que é o Segredo? Responde: É a lei de atração que age como ímã. Tal lei é um absoluto, é toda-poderosa. É “poder infinito”. Em que consiste? “Tudo o que entra em sua vida é você quem atrai, por meio das imagens que mantém em sua mente”. Eis a chave da questão: “O que você vê na sua mente é o que vai ter na mão”. Trata-se de crença na força do pensamento. Coincide com o poder da vontade e do sentimento. A solução é simplista e fácil: “Imagine-se vivendo bem, e você atrairá isso. Sempre dá certo, com qualquer pessoa”.

É evidente a ilusão do poder absoluto da mente individual. Não leva em conta a objetividade das dificuldades externas e conjeturais: estruturas culturais, sociais, políticas, econômicas.
A obra aplica o Segredo para a obtenção da saúde. Há pérolas medicinais. Fiquemos com o testemunho de Norman. “Norman recebeu o diagnóstico de uma doença “incurável”. Os médicos disseram que ele tinha poucos meses de vida. Norman decidiu se curar. Durante três meses tudo o que ele fez foi assistir a comédias e rir sem parar. A doença deixou seu corpo naqueles três meses, e os médicos disseram que sua recuperação era um milagre”.

A cura de Norman, para os médicos, seria um milagre. Portanto, intervenção divina. Para Norman foi uma decisão pessoal, fruto do poder da sua mente. É correto estabelecer tal receituário como universalmente válido e eficiente? Sabemos que, embora haja doenças psicossomáticas que, no entanto, necessitam da atuação de especialistas para serem curadas, as enfermidades existem também por fatores congênitos ou externos: micróbios, contágio e falta de prevenção e de higiene.

Um dos resumos do Segredo é o seguinte: “Como o gênio de Aladim, a lei da atração atende a todos os nossos pedidos”. De fato, à semelhança do gênio, a lei atende apenas na fantasia da mente iludida ou que seja desvairada. Não passa de mágica fantasiosa o recurso ao Segredo, que nada revela de científico e nada possui de comprobatório. Limita-se ao campo da crença infantil e imatura.

Outro dentre os resumos do Segredo é o seguinte: “O efeito placebo é um exemplo da lei da atração em ação. Quando um paciente acredita de fato que o comprimido é uma cura, recebe aquilo em que acredita e acaba curado”.

Bem se vê que a obra, sem se aperceber, ela própria é um placebo ao prescrever falso remédio a produzir uma equivocada sensação de cura. Infelizmente, muitos se julgarão curados pela lei da atração e iluminados pelo conhecimento do Segredo. O pior é que a doença fará seu estrago, até fatal, com a cessação dos sintomas, antes que o médico seja procurado a tempo.

A mentalidade difundida pela Nova Era (New Age), da qual faz parte a obra The Secret, tem a pretensão de atribuir à gnose (o pensamento humano desligado da Revelação) o valor de ciência e sabedoria milenar. Não é ciência, pois não tem comprovação. Não é sabedoria, pois não passa de falácia e de interesse. É apenas crença no poder mental.

O único segredo, não tão secreto assim, que o livro oferece é como ganhar dinheiro e fazer fortuna, à custa de pessoas ingênuas e necessitadas de orientação. Aliás, a própria autora confessa: “O Segredo tem sido usado para atrair todos os tipos de coisas – de um estado de espírito específico a 10 milhões de dólares”.
Discordância

O livro diz: “Confie no Universo. Confie, creia, tenha fé.” Porém, não se trata da fé em um Deus pessoal. Não é a fé em Deus Pai, vivo e verdadeiro, que expressa sua Inteligência, Vontade e Amor, na História da Salvação, máxime em Jesus e no Espírito Santo.
A oração e a gratidão propostas são dirigidas ao próprio eu, enquanto ser individual que pensa, sente e age. Portanto, pode tudo. Trata-se de ateísmo prático para ser praticado e difundido através da atitude de egolatria, confiança na força do próprio desejo.

A oração cristã, ao contrário, evidencia o poder de Deus, em Cristo. Tudo nós podemos de bom, em nome de Jesus, que nos fortalece e sustenta. Também quando somos fracos e frágeis, é Deus, em Cristo, quem nos faz fortes na fé para superarmos os obstáculos.

Deus nos liberta para o amor. Ele purifica nossa vontade e nossos desejos. Ele nos ilumina em nossas opções e decisões. Se for necessário, Ele nos cura para sermos santos e saudáveis no corpo e na alma, e realizarmos nossa vocação e missão no mundo, no amor, na verdade e na justiça.
Deus é a causa ou a fonte de nossa alegria e de nossos sucessos. Ele nos consola e pode nos erguer em nossos insucessos. Por isso, somos sempre agradecidos e repetimos com freqüência: Graças a Deus!
O livro menospreza a experiência do pecado, conforme a frase atribuída a Jack Canfield: “Levei muitos anos para chegar a este ponto, porque fui criado com a noção de que havia algo que eu deveria fazer e, se eu não fizesse, Deus não ficaria satisfeito comigo”. Portanto, não considera que tudo o que a mente deseja e julga conseguir, para ser feliz, deva seguir a via da ética ou da moral ou do simples bom senso.

Pior: rejeita a vontade e o plano de amor de Deus a nosso respeito, cuja desobediência expressa nossa pecaminosidade.
Sabemos que a vontade humana, segundo o ensinamento de Jesus, deve se conformar à vontade divina, para buscar e encontrar a felicidade verdadeira, aqui, e para a eternidade. Jesus é nosso Mestre e Modelo em tudo que desejamos e procuramos. Nós somos seus discípulos e seguidores. Entretanto, devido à força do pecado e de outras limitações, necessitamos não só do exemplo de Cristo, mas da sua graça. Ela brota do seu sacrifício na cruz e nos atingiu desde o Batismo. Ela nos elevou a condição de filhos de Deus muito amados. Todos os demais Sacramentos são canais da graça a qual nos santifica e nos prepara para viver bem e felizes.

Necessitamos do pleno conhecimento, dado pela fé, através da Revelação. Ele já nos foi dado para sempre. Por isso, melhor que o termo segredo, São Paulo utiliza o termo mistério, quando se refere ao plano divino da nossa salvação, que conhecemos.

O mistério, antes oculto em Deus, foi revelado, em Cristo Jesus, mediante a ação do Espírito Santo. Por isso, nós que somos cristãos preferimos conhecer Jesus, acima de todo e qualquer conhecimento humano. Aprofundamos o mistério de Cristo e nos conformamos a Ele, livre e conscientemente. Eis o sentido e o segredo revelador de nossa alegria e de nossa paz. Por isso, nada antepomos ao conhecimento e ao amor de Cristo.

A necessidade de sempre abrirmos os Evangelhos e os demais escritos do Novo Testamento, especialmente as Cartas de Paulo, é para sedimentarmos nosso conhecimento sobre o amor de Cristo, diante das falsas gnoses, que pretendem oferecer melhor explicação do sentido da vida e da existência.
Conclusão


Há males que vêm para o bem. The Secret possibilita que recoloquemos o conhecimento de Cristo na sua centralidade para nossa fé e nossa existência cristã.
Leva-nos a aprofundar o sentido prático dos dons e dos frutos do Espírito Santo, sempre tão necessários. Instiga aos pastoralistas e escritores católicos a escreverem sobre temas referentes à auto-ajuda e à auto-estima, para a purificação e o fortalecimento da vontade e a reta expressão dos desejos, que sempre incluem o favor necessário da graça divina e a imitação de Cristo Senhor.

Estimula a difusão do apostolado da Boa Imprensa. Os responsáveis pelas Editoras e Livrarias Católicas não podem perder de vista o interesse do público, inclusive dos fiéis católicos, por tais assuntos, a fim de oferecer-lhes publicações que saciem sua sede e fome de Deus, no itinerário da vida, sedenta de sentido, desejosa de felicidade, necessitada de saúde e de prosperidade.
Enfim, um alerta. A gnose da prosperidade, fruto do neopaganismo, e certos procedimentos, baseados na Teologia da Prosperidade, em alguns ambientes cristãos, parecem ter a mesma fonte: o pecado da cobiça.

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